Política

Em entrevista à Veja, Raquel Lyra comenta palanque nacional e disputa contra João Campos

Redação
Foto: Germano Lüders/Veja

Da Revista Veja*
Primeira mulher a governar Pernambuco, Raquel Lyra chegou ao comando do segundo maior colégio eleitoral do Nordeste após construir uma carreira sólida: foi secretária na gestão do ex-governador Eduardo Campos, deputada estadual por oito anos e prefeita de Caruaru, a principal cidade do interior, por dois mandatos (2017-2022). Com passagens pelo PSB, onde teve dificuldade para se lançar eleitoralmente, e pelo PSDB, pelo qual chegou ao cargo atual, ela integra desde 2025 o PSD de Gilberto Kassab, com quem negociou ampla autonomia na liderança local da sigla. Eleita longe do duelo entre petismo e bolsonarismo, ela aposta nessa estratégia para manter a boa relação com Lula, o principal cabo eleitoral do estado, e garantir a neutralidade petista na disputa com o ex-prefeito de Recife João Campos (PSB), a quem superou no Datafolha de maio (51% a 44% no segundo turno). “A polarização não enche a barriga de ninguém”, diz.

A que a senhora atribui a virada sobre João Campos?
Eu olho isso com muita cautela e compromisso. Mas atribuo esse resultado à trajetória do nosso governo. Pegamos um estado quebrado, sem dinheiro, que investia pouco. Arrumamos a casa. Destravamos obras paralisadas há doze, catorze anos. Começamos a tomar crédito e a garantir a alavancagem de investimentos, melhorar o ambiente de negócios, permitir uma maior geração de emprego, de oportunidades, limpar a pauta de quem quer fazer a economia girar no estado. Em relatório do Banco Mundial de 2021, Pernambuco era o pior estado para empreender no Brasil. Estávamos com 14% de desemprego e há quinze anos não caía abaixo de 10%. Chegamos a 9,2%. Ainda é muito alto, mas demonstra que nós estamos no caminho certo.

Seu adversário na campanha estadual é considerado um dos políticos mais promissores para o futuro da esquerda. Quais são as diferenças essenciais entre a senhora e João Campos?
Ele representa uma tentativa de voltar ao passado, quando o PSB governou Pernambuco por dezesseis anos seguidos. Quando cheguei, tinha muita coisa que tinha sido prometida, colocado propaganda na TV, mas o dinheiro não existia. Destravamos muitas obras. É preciso se importar com a população, não como um número de likes, mas com a história dela, em como você pode ajudá-la.

Apesar de coligado com o PSB de Campos, o PT está dividido sobre Lula ter um palanque duplo em Pernambuco. Como avalia essa situação?
Acho que é um momento de menos sectarização e mais construção de pontes. O PT tem toda a autonomia para discutir os rumos após as convenções. E a gente vai continuar no trabalho, porque restabelecemos a confiança do governo federal em Pernambuco. A gestão anterior (de Paulo Câmara, do PSB) brigou com três presidentes da República. E não se tratava de ideologia, porque brigou com Dilma, Temer e Bolsonaro. O resultado foi Pernambuco ficar sem investimento. Somos um estado pobre, é preciso um governo que dialogue. Fizemos isso desde o primeiro momento, e Lula abriu as portas do governo para colocar Pernambuco de volta no mapa dos investimentos nacionais.

“É preciso construir pontes. Quando se fala de polarização, temos que fugir, porque ela não enche a barriga de ninguém. Eu não me alimento disso. Não alimento os outros também”

A senhora é apoiada por políticos de direita e até do PL. Se não tiver Lula no palanque, fará aceno a Flávio Bolsonaro?
O que temos é uma aliança em favor de Pernambuco. Tenho apoios do PSOL ao PL de pessoas que compreendem que não se trata de partido, mas de um projeto de transformação que está dando certo. Não é sobre a próxima eleição. Se aprovo projetos com o voto de quem está no PL ou no PSOL, é pouco relevante para a população. Sobre eleição, vamos nos posicionar no momento correto.

Por falar no presidente, que concorre à reeleição: qual sua avaliação sobre o governo Lula?
O presidente disse que não faltaria a Pernambuco. E ele abriu as portas do governo federal, com seus ministros. Estamos fazendo um trabalho de qualidade pelo povo, e isso tem acontecido porque tenho tido a solidariedade do presidente Lula e de parte do PT.

A senhora disse a VEJA em 2022 que não era lulista nem bolsonarista. Algo mudou?
Pernambuco precisava de uma governadora que cuidasse do povo. O estado tinha o segundo pior racionamento de água do Brasil em janeiro de 2023. Quando assumi, tínhamos 2 milhões de pessoas sem acesso. Não estamos falando sobre em quem a pessoa vai votar, é sobre ela ter água na torneira. Não é sobre a qual partido político ela está filiada, é sobre ela ter casa. Entregamos 25.000 unidades em três anos e meio.

O PSD tem o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado como pré-candidato ao Planalto. Ele terá espaço em seu palanque?
Eu respeito a trajetória dele. Entregou resultados em educação, saúde, segurança. O PSD tem legitimidade para apresentar candidato, somos o maior partido do Brasil em prefeituras. Mas, quando me filiei, após dois anos de conversas com Kassab, sempre ficou muito clara a liberdade que eu teria para conduzir o partido em Pernambuco. Guardo isso para me posicionar sobre esse tema nos próximos tempos. Não haverá surpresas.

O PSD e sua base aliada somam 150 das 185 prefeituras de Pernambuco. Isso será decisivo na disputa contra João Campos?
A aliança com as lideranças dos municípios é superimportante para o processo eleitoral, mas é sobretudo para a governança. Nenhum desses prefeitos se aproximou por dor, chicote, medo, mas pelo trabalho que fazemos. É preciso ter a base no chão, se aproximar de municípios e do governo federal, compreender que não podemos brigar, mas, sim, construir pontes. Quando se fala de polarização, temos que fugir, porque ela não enche a barriga de ninguém. Eu não me alimento disso. E busco não alimentar os outros também.

Pesquisas apontam dificuldades para siglas de esquerda como PT e PSB nas eleições deste ano no Nordeste. Há uma mudança ideológica em curso na região?
O mundo e a política estão mudando. O Brasil é um país cheio de oportunidades, e o Nordeste precisa ser enxergado assim também. A questão é menos sobre partidos e mais sobre pessoas, como elas podem se unir para superar desafios que estão postos e fazer o estado crescer, o país crescer. Pernambuco não tem dono. O Nordeste não tem, nenhuma população tem. Ninguém é dono do povo.

Quais as principais aspirações dos pernambucanos e dos nordestinos hoje?
A maioria acorda bem cedinho e vai dormir muito tarde, passa pouco tempo em casa, está lutando para pagar aluguel, colocar a comida na mesa, ter uma escola de qualidade para seu menino. O povo pernambucano ajudou a construir a democracia no Brasil, lutou pela liberdade, luta todos os dias. Mas a liberdade hoje tem outras formas: acesso a água, a estradas, transporte de qualidade, educação libertadora, oportunidade de trabalho.

Pernambuco melhorou os índices de segurança, mas continua como quarto pior em homicídios. Por que é tão difícil evoluir nesse tema?
Estamos no melhor momento da segurança desde 2004. Nos cinco primeiros meses de 2026, tivemos 40% de redução de crimes contra o patrimônio. Estamos fazendo o maior investimento da história, são 2,3 bilhões de reais. Pegamos o mesmo efetivo das polícias que havia em 2013. Não se faz segurança pública empurrando viatura sem combustível, com arma velha, dividindo colete à prova de bala, com fungos nas costas. Investimos na construção de vagas de presídio, porque não adianta prender e não isolar o preso dos contatos de fora. Mas ainda tem um caminho longo a percorrer.

“Não acreditavam em uma mulher que foi prefeita do interior e chegou ao governo de maneira improvável aos olhos da política tradicional. Tentaram abreviar meu mandato”

Como avalia os EUA classificarem o PCC e o Comando Vermelho como terroristas?
É preciso muita cautela com atos unilaterais adotados sem que se possa identificar exatamente qual será o próximo passo. Segurança pública e a questão do narcotráfico têm que ser a prioridade zero de qualquer governo, e isso precisa ser feito em uma grande rede. Precisamos avançar em colaboração financeira, repartição de desafios, sem ferir a soberania: quer da União sobre os estados, quer de outros países em cima do Brasil. O que significa efetivamente decretar que o PCC e o CV são terroristas? Se os EUA quiserem ajudar, podem ser bem-vindos. Agora, se ferir a soberania nacional, eu sou contra.

Apesar de ser a primeira mulher governadora, sua aprovação e sua intenção de votos no Datafolha são menores no eleitorado feminino. O que leva a essa situação?
Eu trabalho para elas todos os dias. Busco honrar a confiança que me deram. No Nordeste, grande parte dos lares é chefiado por mulheres. A maioria das casas que a gente entrega é para elas. Estamos construindo uma rede de maternidades, entregamos o Hospital da Mulher do Agreste, que estava com obras paradas há dez anos. E estamos fazendo outros quatro. Quando cuido de uma mulher, cuido da família inteira.

Por que a senhora teve dificuldades na Assembleia, com travas da oposição a projetos e até pedido de impeachment?
Os desafios que tive eram por causa de alguns que não acreditavam em uma mulher que foi prefeita do interior e chegou ao governo de maneira improvável aos olhos da política tradicional. Tentaram abreviar meu mandato. Eu não tenho dúvida que isso tem um componente de misoginia. Me julguem pelas minhas entregas, pelo meu resultado, não me julguem por ser mulher.

O TCE investiga um contrato de 185 milhões de reais de seu governo com construtora considerada inidônea. O que ocorreu nesse episódio?
Havia várias escolas abandonadas há muitos anos, sem rede elétrica adequada, sem rede lógica, sem banheiros adequados, sem telhado adequado, sem acessibilidade. Se o Tribunal de Contas faz qualquer tipo de auditoria, para mim é supertranquilo, responderemos a tudo que for questionado. Ela foi contratada por vários órgãos federais, estaduais e municipais. Se houver qualquer impedimento real para o contrato, a gente desfaz. Com tudo que eu tenho de informação até agora, não existe uma proibição de contratação.

Kassab disse que, se a senhora for reeleita, se tornará a mulher mais poderosa da política nacional. Quais são seus planos?
Ele é um generoso. Desde o começo, eu dizia que só era candidata a ser a melhor governadora que Pernambuco pode ter. Estamos nos avizinhando do processo eleitoral, eu vou disputá-lo e o povo vai decidir. Não faço uma eleição pensando na outra.

*Entrevista publicada nas Páginas Amarelas, na edição nº 2999 de 12 de junho de 2026.