Opinião

Opinião | As múltiplas derrotas de João Campos

Redação
Foto: Edson Holanda

Por Vanuccio Pimentel*

Em julho de 2025 escrevi aqui no Blog Cenário um artigo analisando as dificuldades que João Campos enfrentaria na região Agreste do estado para as eleições de 2026. Ao final, apresentei a seguinte visão sobre a estratégia que já se desenhava naquele momento: “A aposta na região metropolitana como a única fortaleza que impedirá a vitória da governadora não parece se alinhar com a complexidade da eleição estadual”.

Passadas as eleições, é possível afirmar que a derrota de João Campos (PSB) no dia 04 de outubro não foi uma derrota qualquer. Foi uma derrota múltipla. Eu vou considerar três pontos de análise para sustentar esse argumento. 

O primeiro ponto é que João Campos é herdeiro do maior e mais importante grupo político da história recente de Pernambuco. Desde quando o bisavô Miguel Arraes foi deposto pelo regime militar que o PSB continua sendo peça fundamental na política pernambucana. A condução firme e a passagem avassaladora de Eduardo Campos pelo governo modernizou o grupo e o inseriu no século XXI. 

Quando decidiu renunciar à Prefeitura do Recife para disputar as eleições deste ano, João Campos carregou toda a responsabilidade dessa história e a colocou como arma na disputa. Ao vencer as eleições, a governadora Raquel Lyra (PSD) derrotou toda essa trajetória do PSB. 

A segunda derrota foi no campo estratégico. Considerar a região metropolitana uma fortaleza capaz de impedir a vitória da governadora mostrou-se um erro gigante. O Recife não é uma cidade com guetos políticos, a própria vitória de João Campos em 2020 sobre Marília Arraes (então no PT) na disputa para a Prefeitura do Recife já havia demonstrado que a cidade não possui redutos políticos e que nenhum candidato pode garantir ter o controle sobre alguma região da cidade.

Esse raciocínio pode funcionar com as cidades do interior. Caruaru, por exemplo, continua encastelada em torno da governadora. Petrolina, por sua vez, continua como fortaleza da família Coelho. Mas o Recife não tem essa caraterística. 

A terceira derrota que quero considerar também é estratégica. Com as eleições municipais de 2028 no horizonte, abre-se uma janela de oportunidade para a governadora apoiar um nome para a disputa da Prefeitura do Recife. Victor Marques (PCdoB) deve ser o candidato apoiado por João Campos, egresso de uma derrota estadual e com uma vantagem muito apertada no Recife.

O João Campos reeleito com 78,11% de votos ficou para trás. A forte campanha negativa feita sobre ele na disputa estadual e o fraco desempenho no Recife, deve deixá-lo como um cabo eleitoral menos poderoso na cidade.

*Doutor em Ciência Política (UFPE) e professor adjunto II – Asces-Unita