
Por Silvio Nascimento*
Por muito tempo, parte do debate público internacional tentou explicar as mudanças políticas recentes como uma simples “guinada à direita”. Essa leitura, além de superficial, ignora o elemento central do fenômeno: o esgotamento de um projeto político, econômico e cultural que prometeu progresso, mas entregou frustração.
O que está acontecendo no mundo não é uma conversão ideológica em massa, e sim uma reação. Uma reação de sociedades que se sentem enganadas, empobrecidas e silenciadas após anos de políticas impostas de cima para baixo, frequentemente justificadas por discursos moralmente elevados, mas desconectados da realidade concreta das pessoas.
Durante décadas, governos e organismos internacionais defenderam agendas que relativizaram valores, enfraqueceram fronteiras, expandiram o Estado de forma desordenada e trataram qualquer questionamento como atraso ou ignorância. O resultado é visível em diferentes partes do mundo: inflação persistente, insegurança crescente, perda de poder de compra, censura velada e cidadãos cada vez mais distantes das decisões que afetam suas próprias vidas. Esse cenário produziu um efeito previsível: a quebra de confiança. Quando o discurso oficial insiste que tudo vai bem, enquanto a vida real mostra o contrário, as pessoas param de acreditar e começam a buscar alternativas.
É nesse contexto que surgem figuras políticas que desafiam o establishment. Nos Estados Unidos, Donald Trump expôs contradições profundas do sistema político e econômico globalizado, rompendo com consensos que pareciam intocáveis. Na Argentina, Javier Milei canalizou a revolta de uma população exausta de décadas de populismo, inflação crônica e empobrecimento estrutural.
Em El Salvador, Nayib Bukele confrontou o crime organizado com uma postura inédita na região, recolocando o controle do território nas mãos do Estado, algo que muitos consideravam impossível. Na Europa, líderes como Viktor Orbán e Marine Le Pen ganham espaço ao defender temas que durante anos foram tratados como tabu: soberania nacional, identidade cultural e autoridade institucional. Concorde-se ou não com cada um desses líderes, há um ponto em comum impossível de ignorar: eles prosperam porque falam de problemas reais que foram varridos para debaixo do tapete por muito tempo.
Enquanto isso, o colapso das narrativas autoritárias, mostram sinais claros de esgotamento. Não há propaganda capaz de sustentar indefinidamente economias destruídas, populações empobrecidas e repressão aberta. A história demonstra, repetidas vezes, que ditaduras podem resistir por algum tempo, mas inevitavelmente entram em colapso quando perdem qualquer capacidade de oferecer dignidade mínima ao seu povo. A realidade, mais cedo ou mais tarde, sempre se impõe.
O Brasil não está isolado desse processo global. O sentimento de cansaço é evidente. Cansaço de discursos sociais que convivem com corrupção sistêmica. Cansaço de um Estado cada vez mais poderoso e de um cidadão cada vez mais frágil. Cansaço de militância ideológica ocupando espaços de governo, enquanto problemas básicos permanecem sem solução.
Há uma percepção crescente de que o modelo vigente protege estruturas, não pessoas. Protege privilégios, não o trabalho. Amplia o Estado, mas não fortalece o cidadão. É nesse ambiente que parte significativa da população passa a enxergar em nomes como Flávio Bolsonaro a continuidade de uma agenda de enfrentamento ao sistema político tradicional. Uma agenda que se apresenta como defensora da liberdade individual, da família, da economia de mercado e da devolução de poder à sociedade e não à burocracia.
Independentemente de preferências partidárias, um fato é incontestável: a história está se movendo. Ignorar esse movimento, desqualificá-lo ou fingir que nada está acontecendo não o fará desaparecer.
O mundo não mudou de lado por acaso. Mudou porque promessas vazias perderam força diante da realidade. Mudou porque as pessoas querem segurança, prosperidade, voz e respeito. Quem continuar apostando apenas em narrativas, sem entregar resultados concretos, corre o risco de ser ultrapassado não por adversários políticos, mas pela própria realidade.
E a realidade, como sempre, não pede licença.
*Jornalista e vereador de Caruaru













